Dor, Anestésicos e Alergia

Dor, Anestésicos e Alergia

Antes da Biblía citar o salgueiro como um remédio eficaz para a dor, Hipócrates, o pai da medicina ocidental, já indicava, no século V a.C., o uso das folhas da árvore para diminuir o sofrimento de seus pacientes. Uma escolha sábia, pois continham, como princípio ativo, o ácido acetil salicílico (AAS, ou aspirina). De qualquer modo, eram poucas as opções de drogas analgésicas, fazendo com que o ato de consolar tivesse sido uma alternativa frequentemente utilizada. Segundo alguns, o pai da medicina teria dito, sobre o compromisso médico, um aforismo que serve até hoje: “curar algumas vezes, aliviar muitas vezes, consolar sempre”.

A dor, naqueles tempos, tinha um caráter, além de terrificante, também mágico, principalmente quando o sintoma, ao contrário de uma situação óbvia (como um braço cortado) era resultado de alguma alteração interna. Muitos animais foram ensanguentados para que os humanos entrassem em convalescença. A oferenda do sacrifício de um boi, leitão ou carneiro, entre vários significados, poderia funcionar como uma comunhão com os deuses, uma forma de aliviar o sofrimento. Mas imagine se, em plena Idade Média, sofrendo de uma intensa enxaqueca, você tivesse que ser submetido a uma trepanação (um pequeno buraco feito no crânio), para que o mal “fluísse” e fosse embora, um procedimento arrepiante numa época em que a anestesia ainda não existia.

Quando Charles Darwin, um filho de médico, desistiu da faculdade de medicina porque presenciou os gritos de uma criança na sala de cirurgia, ainda não existia o bloqueio completo da dor. O famoso naturalista, que era apenas um teólogo quando embarcou, em 1831, na viagem ao redor do mundo que marcaria sua vida (e de toda a ciência), por pouco não teve uma vida de pároco desconhecido. Somente alguns anos após, na metade do século XIX,  ocorreu o primeiro uso de um anestésico com efeito significativo.

A partir daí, cada vez mais opções estiveram à disposição do médico; drogas variadas, surgidas no século XX, permitem agora diversas abordagens na diminuição do estímulo álgico (do grego algesis, sofrimento; logo, analgesia: sem dor), que podem então ser divididas em anestesia local (creme ou injeção), regional (em uma região maior; raque, peridural e a anestesia da inervação de um braço são alguns exemplos), ou geral (quando o paciente fica desacordado).

Na anestesia geral também é necessária a utilização de uma droga potente (o curare, um bloqueador muscular) que relaxe completamente a musculatura. Isto facilita a cirurgia e evita lesões, mas exige uma atenção redobrada, já que o paciente terá uma depressão respiratória, ou seja, não conseguirá respirar sozinho. O anestesista, neste caso, fornecerá, artificialmente (manualmente ou por aparelhos), o ar com oxigênio de que os pulmões precisam.

Outras abordagens simultâneas, como a sedação (geralmente inalada, o “cheirinho”), colaboram para o sucesso de um procedimento mais tranqüilo. Neste caso, o paciente fica “grogue” (sedado, ou “acalmado”). Um exemplo é o óxido nítrico, usado em procedimentos odontológicos.

Cada produto desses grupos de drogas pode induzir a um quadro alérgico, como vermelhidão, falta de ar, queda de pressão e inchaço. Vale lembrar que, em boa parte dos casos, o real culpado foi o antibiótico aplicado antes da cirurgia. As reações alérgicas produzidas por anestésicos são extremamente raras. Em edição da revista Brasileira de Anestesiologia, de 2004, há o relato de um caso de uma paciente de 16 anos que teve alergia comprovada à lidocaína (xilocaína). Na avaliação a que foi submetida, os testes realizados com a lidocaína (sem conservantes e sem vasoconstritores) resultaram em novo quadro de manchas vermelhas pelo corpo (urticária).

No entanto, em quase todos os outros casos suspeitos que, ao longo dos anos são avaliados por especialistas ao redor do mundo, os anestésicos não são os maiores vilões. Conservantes que vão junto com as drogas, ou então outras drogas utilizadas em uma cirurgia (como os bloqueadores musculares mais antigos) frequentemente são os implicados. De qualquer modo, não mais que 1% dos eventos relacionados à anestesia são interpretados como alérgicos.

Existem também as reações produzidas pelo excesso da droga; por exemplo: acidentalmente, o anestésico local é injetado na corrente sanguínea (em lugar de ficar restrito à gordura, abaixo da pele) e chega ao cérebro, produzindo vômito, inquietação, coma e até convulsões. Até anestésicos locais na forma de gel, pomada ou colutório (os conhecidos sprays que aliviam a dor de garganta) podem, se utilizados exageradamente (principalmente em crianças pequenas), causar efeitos potencialmente graves.

Mas qual é a reação mais comum? Quando o dentista lança mão de aplicação na gengiva (o anestésico local injetável), existe uma reação que está no topo das experimentadas pelos pacientes: a crise vasovagal. Esta é uma situação em que há mal-estar, a pressão cai, sente-se falta de ar e uma sensação desagradável que faz muitos profissionais se recusarem a utilizar um anestésico novamente, com receio de um desenlace trágico. Também os pacientes, após esse momento de desespero, preferem a dor a uma outra surpresa angustiante.

Acontece que a crise vasovagal diz respeito a um momento de estresse do organismo, frequentemente de origem psicológica. É difícil acreditar que o relaxamente adequado, a autoconfiança e uma nova fase pela qual o paciente esteja passando possam resolver o problema. Neste caso, a tarefa do médico é mostrar que não se trata de uma questão de “mania” ou “frescura”, mas apenas uma sobrecarga momentânea em um organismo predisposto a este tipo de reação.

Após uma avaliação cuidadosa, muitos pacientes poderão voltar a utilizar os anestésicos suspeitos. Em outros casos, opções alternativas evitarão um risco desnecessário, já que não existe um tratamento específico (como vacina alérgica ou anticorpos protetores). Hoje sabemos que Hipócrates não falou a famosa frase sobre a obrigação do médico de consolar sempre. Mas, excluindo os eventos ritualísticos, o fato é que, desde o início dos tempos, nós, humanos, continuamos a nos deparar com o desafio de sentir menos dor. Nesse quesito, façamos jus, os anestesiologistas são mestres.

Raul Melo