Inverno, Verão e Alergias Respiratórias

Inverno, Verão e Alergias Respiratórias

Uma massa de ar com 200 km de altura pode parecer demais, mas podemos comparar a espessura da atmosfera em relação ao planeta Terra ao cobrirmos uma bola de futebol com algumas camadas de verniz. Seria um bom exemplo de como essa lâmina protetora seria vista do espaço. Protetora, sim, pois impede o choque de milhares de corpos celestes potencialmente desequilibradores de um ecossistema que persiste até certo ponto intacto, pois as temperaturas oscilam de forma suave sob um manto de aquecimento. Não poderíamos esperar menos do que um contínuo inverno siberiano, se o efeito estufa não existisse em nosso “pequenino lar planetário, perdido em algum lugar entre a imensidão e a eternidade”, na descrição do astrônomo Carl Sagan, em 1981.

Outra peculiaridade de nosso planeta está relacionada à sequência de estações do ano, resultantes da inclinação do eixo ao redor de 23 graus. Uma inclinação razoável. Compare por exemplo, com os atuais quatro graus da Torre de Pisa. Em astronomia, no entanto, o termo mais correto seria axial tilt, que se refere à relação do eixo com a órbita ao redor do Sol e torna, alternadamente, hemisférios terrestres mais próximos e mais distantes.

Ao longo do ano, curiosamente, a distância entre o Sol e a Terra tem pouca variação, mas, com o tilt em sua inflexão máxima, os solstícios surgem de forma marcante. O de verão, que para nós ocorre em dezembro (a data varia de ano a ano), representa o dia mais longo do ano. Em espelho, o solstício de inverno ocorre no hemisfério norte, onde surgiram mitologias relacionadas ao dia que passava a vencer a noite, já que, a partir daquele ponto, a escuridão noturna seria gradativamente sobrepujada pela luz solar. Há quem acredite que o Natal, originalmente pagão, seria mais uma destas festas do solstício de inverno.

Em um país tropical como o Brasil, banhado de forma generosa pelo Sol, com um verão chuvoso em boa parte e muitas capitais litorâneas com baixo nível de poluição atmosférica, seria natural esperar índices modestos de alergia, não é mesmo? Pois vamos voltar um pouco no tempo – e nos estudos – para descobrir a resposta a essa pergunta.

O século XXI já começou com preocupações relacionadas às novas vertentes de poluição indoor, mas foi ao longo do século XX que se tornou clara a associação entre a piora da poluição e o agravamento das doenças respiratórias, notadamente as alérgicas.

Isso não significa que essa constatação seja propriamente nova. Fatos esporádicos são descritos nas páginas da História, como o relato, em 79 d.C., da sufocação, causada pelos vapores do monte Vesúvio, em Plínio, o Velho, que conseguiu fugir dos nove metros de cinza e detritos que cobriram Pompéia, mas acabou morrendo (literalmente) na praia. O assunto poluição também frequentou noticiários séculos mais tarde, quando a Revolução Industrial levantou o debate sobre a piora das condições respiratórias dos habitantes de Londres devido à queima do carvão para uso em fábricas e aquecimento domiciliar.

Desde então, estudos realizados principalmente em países da Europa e nos Estados Unidos, demonstraram franca relação entre o nível de partículas poluentes em suspensão e visitas a emergências médicas, perda de dias escolares e limitações às atividades físicas, notadamente em estações frias.

A entrada do inverno, período típico em que quadros virais se multiplicam, tradicionalmente aumenta a procura por consultas, sobretudo quando há alguma fragilidade respiratória. Em relação aos sintomas nasais, o estudo ISAAC, por exemplo (um amplo questionário mundial para detectar a frequência de doenças alérgicas), mostrou que cidades das regiões sul e sudeste apresentaram maior incidência nos meses mais frios do ano.

A estação do verão, no entanto, esconde surpresas. Dias quentes facilitam o aumento dos níveis do poluente ozônio, produto da interação da luz solar com hidrocarbonetos (constituintes de combustíveis minerais, como a gasolina) que pode gerar sintomas respiratórios, como tosse, inflamação neutrofílica e queda nos valores de função pulmonar. Em estudo recente se observou que o aumento à exposição ao ozônio (ainda que dentro de limites considerados normais) produzia sintomas em alérgicos (asmáticos, ou não asmáticos), mas não em controles.

Outro derivado do petróleo, o combustível diesel, muito usado na Europa, tem o poder de ampliar a resposta alérgica. A combustão incompleta do diesel lança material particulado no ar, de alto peso molecular (CO, NO, hidrocarbonetos) além de formas gasosas como a do monóxido de carbono.

Por outro lado, estudos epidemiológicos, realizados após a queda do muro de Berlim, levantaram a suspeita de que o modo de vida poderia ser até mais importante que a poluição. A Hipótese da Higiene foi revisitada, é verdade, mas continua viva. Estudo recente realizado na tropical Papua Nova Guiné mostrou que vilas isoladas, distantes culturalmente da vida ocidentalizada, tinham menores índices de alergia. Contaminação ambiental com partículas bacterianas de fezes de animais, verminose, infecções intestinais e leite não pasteurizado fariam parte de uma receita quase infalível para a prevenção da alergia.

Neste quesito, nosso país seria um Eldorado, mas a possível “receita brasileira de prevenção” mostrou-se equivocada, assim como a poluição pode não ser tão determinante como se pensava. Dados recentes do estudo ISAAC evidenciaram prevalência alta de rinite, por exemplo, em cidades quentes, úmidas e pouco poluídas. Se parece muito um quarto da população de São Paulo se queixar de algum sintoma nasal no ano anterior, o que dizer a respeito de dados entre 24.1%, em Recife, e 46.0%, em Salvador?

Especula-se se a umidade poderia ser o principal fator isolado, predispondo ao crescimento de fungos em ambientes internos. Neste caso, os domicílios adquiririam suma importância. Fungos crescem em diferentes níveis de acidez, reproduzem-se de forma sexuada ou assexuada, produzindo esporos. Além de utilizar as mesmas fontes nutricionais das bactérias, os fungos também inibem o crescimento delas ao excretar toxinas ao redor, uma característica que pode ser vantajosa aos seres humanos. Basta lembrarmos, como exemplo, da descoberta do bacteriologista Alexander Fleming com o Penicilium.

Mas os fungos não proliferam apenas em paredes. Estão em carpetes, ar condicionados, solo, plantas. Alternaria, Aspergillus e Cladosporium são apenas alguns dos mais encontrados. Umidificadores são indicados em cidades com clima seco (por uma ou duas horas, à noite); mas, se ligados de forma ininterrupta, são prejudiciais, pois aumentam o risco de se obter um quarto mofado. Em contrapartida, o controle da umidade dos interiores, utilizando desumidificadores (aqueles controlados com umidostato são os mais adequados), e a diminuição do pó do ambiente são medidas que diminuem consideravelmente a população de fungos de uma residência.

Os ácaros, aracnídeos que vivem nos tecidos e na poeira domiciliar, alimentam-se de restos alimentares, descamação da pele humana e de fungos, muitos fungos. Está formado o sinergismo maléfico para as vias respiratórias de indivíduos alérgicos em um país tropical.

Os dados de alergia do ISAAC, no entanto, podem ser mal interpretados. Acredita-se que um terço dos quadros de rinite possam ser enquadrados como não alérgicos e incluem outras causas de rinite. Obviamente, em um estudo que envolveu crianças e adolescentes, não observaríamos rinite senil, ou gravídica, mas seguramente a rinite do “nariz sensível”, que piora com mudanças de temperatura, tem sido subestimada.

O relato de muitos pacientes que levantam pela manhã, pisam no chão frio e começam a espirrar nos remete a esse diagnóstico. A alternância calor/frio – maior nos extremos de verão e inverno – passa a ser um tormento para esse grupo de indivíduos, em que se observou, em uma série de estudos realizada na Universidade de Liverpool, anormalidades quantitativas e qualitativas no controle da passagem do ar pelas vias aéreas superiores. O exercício, por exemplo, não produz alteração no nariz de controles, mas, naqueles com esse tipo de doença nasal, a resistência à passagem do ar aumenta. Curioso, não?

Verão e alergia respiratória, uma dupla traiçoieira. É possível aproveitar a estação mais quente do ano sem muitas surpresas, conhecendo um pouco mais as peculiaridades patofisiológicas de nossos pacientes alérgicos, fornecendo orientações adequadas e tratamentos de qualidade. Assim, eles poderão brindar mais um ano que começa. Tim-tim.

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Raul Melo