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 Reações graves: anafilaxia e choque anafilático

Por: Raul Emrich Melo

As reações potencialmente graves de causa alérgica e que envolvem várias partes do corpo (ou sistêmicas) são atualmente chamadas de Anafilaxia. Podem evoluir para queda de pressão, perda de consciência (ou “perda dos sentidos”), dificuldade respiratória e até a morte. Na esmagadora maioria dos casos existem alterações também na pele, como vermelhidão e inchaço (urticária).

Um prato de camarão, por exemplo, pode induzir uma urticária desagradável em muitas pessoas alérgicas. Alguns até enfrentarão novamente os sintomas e tentarão aplacá-lo com um antialérgico, tudo pelo prazer de se deliciar com aquela comida favorita.

Mas, para outros alérgicos, a história não é a mesma. Isto porque os alimentos – junto com remédios e picadas de abelhas e vespas – estão entre as causas mais comuns de anafilaxia. Cerca de 1% das pessoas estão sujeitas a estas reações rápidas, que ocorrem nos primeiros minutos ou horas e geralmente estão relacionadas ao anticorpo da classe IgE (ou imunoglobulina E). Ao ser produzido em excesso, este anticorpo passa a ser o pivô de muitas doenças alérgicas. Na investigação do ocorrido, um exame de laboratório pode confirmar a sensibilidade a um determinado alimento, quando for o caso. Então, a IgE específica estará anormalmente elevada. Como em outras reações alérgicas, o desenvolvimento de inchaço não é vantajoso para o organismo, configurando um quadro, a rigor, de auto-agressão.

A confirmação diagnóstica será mais difícil quando se trata de estímulos que não elevam a IgE. Antiinflamatórios, por exemplo, encaixam-se nesta categoria. Não dispomos de exames para a maioria das medicações que provocam alergia. Os estudos científicos são baseados, muitas vezes, na observação do que acontece com o paciente quando ele repete o remédio sob supervisão médica, em hospital, no procedimento chamado de desencadeamento. Mas é muito arriscado realizar desencadeamentos quando a história clínica é de anafilaxia. Da mesma forma, a reação aos contrastes iodados (usados em exames como a tomografia) não poderá ser confirmada por exames de rotina. Uma conversa minuciosa com o médico, no entanto, poderá ser o suficiente para convencê-lo da importância do caso.

A primeira substância liberada pelo corpo em uma reação alérgica é a histamina. É por isso que os antialérgicos são conhecidos tecnicamente como anti-histamínicos. No entanto, são remédios que começam a melhorar os sintomas somente após 30 a 40 minutos. Por isso, não estão indicados para a primeira abordagem da anafilaxia grave. A cortisona (ou corticóide) é outra droga aplicada nos alérgicos em apuros. Usada de forma correta, também diminui a inflamação alérgica. Seus efeitos de melhora da asma e do edema (inchaço), porém, iniciam-se horas após.

Desta forma, nas situações de emergência, em que há desfalecimento ou dificuldade respiratória, a droga indicada é a adrenalina – uma potente medicação que, ao ser injetada no músculo (da perna, preferencialmente), rapidamente aumenta a pressão sangüínea e diminui o inchaço das mucosas, pelo menos por alguns minutos. Assim, o anti-histamínico e o corticóide terão tempo de começar o efeito de tratamento.

Na anafilaxia grave pode haver uma queda de pressão perigosa e prolongada, que dificulta a chegada de oxigênio aos tecidos. No jargão médico, choque é a palavra utilizada para este evento. É uma situação de alto risco que exige um acompanhamento em um setor de terapia intensiva por alguns dias. Daí o termo choque anafilático, muito escutado pelos leigos mas raramente compreendido, já que é empregado até para desmaios na cadeira do dentista (este susto é na verdade uma queda de pressão momentânea devido ao estresse odontológico).

Outra curiosidade é que cada país tem suas peculiaridades em relação aos estímulos de alergia. Nos Estados Unidos, por exemplo, o amendoim é encontrado em diversos preparados industriais – como a pasta – e consumido em grande quantidade. Conseqüentemente, a anafilaxia ao amendoim é um verdadeiro pesadelo para muitas famílias americanas.

Para quem já visitou o hospital devido à anafilaxia, evitar o contato (quando a causa é conhecida) é a melhor maneira de prevenir novas crises e portar uma caneta de adrenalina (adrenalina na forma autoinjetável, adquirido em importadoras) é fundamental para iniciar o tratamento de uma crise sem perda de tempo.

Dr. Raul Emrich Melo

 

 

 
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