Testes e Exames de Alergia: Auxiliares preciosos no diagnóstico

Testes e Exames de Alergia: Auxiliares preciosos no diagnóstico

É comum a curiosidade dos pacientes em relação aos exames realizados pelo especialista em Alergia-Imunologia, principalmente quando se trata do teste alérgico cutâneo, exame em que gotas de material alérgico são pingadas na face interna do antebraço (entre o cotovelo e o punho). Crianças perguntam se vai haver dor e adultos ficam fascinados com a possibilidade de descobrir em poucos minutos a causa de algum sofrimento.

Inicialmente, vamos falar da IgE, ou imunoglobulina E. Este anticorpo, produzido em quantidades muito pequenas em nosso organismo, provavelmente teve funções de defesa em antepassados dos seres humanos. Acredita-se que tenha ajudado a controlar verminoses intestinais, por exemplo. Ainda hoje, pessoas com parasitas no intestino podem ter níveis elevados desse anticorpo, mesmo que ele não consiga exercer com grande eficiência essa função. De fato, quase todos os estudos atuais relacionam a IgE a doenças, principalmente alérgicas. Especula-se que a presença da Imunoglobulina da classe E seja um resquício da evolução humana, assim como outras estruturas e reflexos que não nos servem para mais nada (e, às vezes, até nos atrapalham).

Uma das características do indivíduo alérgico é, justamente, ter a propensão a produzir em grandes quantidades de IgE, uma molécula que tem “memória” das partículas estimuladoras de alergia que já entraram em contato com o nosso corpo. Detectar uma quantidade anormal da IgE confirma a suspeita de alergia. Podemos dosar a IgE específica (ao  gato, por exemplo) no sangue (RAST ou Immunocap), ou em um teste alérgico.

O teste realizado no braço é menos objetivo que aquele realizado no sangue, mas tem a vantagem de ser rápido e prático. Além disso, uma resultado visível e facilmente reconhecível pelo paciente dá a idéia exata de como acontece a autoagressão alérgica, isto é, um processo em que uma partícula inofensiva para outras pessoas pode induzir ao inchaço, vermelhidão e coceira na região do teste em que foi aplicada, logo após um pequena “raspada” na pele, ou um leve penetração da agulha (ou puntor). O teste alérgico pode ser também chamado de “prick test”, expressão usada na língua inglesa.

Uma versão mais sofisticada da pesquisa de IgE foi lançada recentemente e consiste em um exame único que faz a dosagem simultânea de dezenas de substâncias causadoras de alergia. Chama-se ISAC – painel de IgEs específicas.

Um termo cada vez menos utilizado por médicos da especialidade é “alergia a pó”. Com a possibilidade de avaliar a resposta exacerbada a um item específico do pó (como ácaros, ou baratas) a tendência é relatar a reação com mais detalhes. Portanto, prefere-se dizer “alergia ao ácaros” em lugar de dizer “alergia ao pó”.

Várias outras substâncias são empregadas pelo médico no procedimento citado. Fungos, gramas, alimentos (por exemplo: leite, soja, carne de porco, cacau), venenos de formigas e mosquitos, partículas de bactérias e, item mais importante em quadros respiratórios, os ácaros existentes no Brasil. Não são utilizadas nesse teste substâncias que causam irritação na pele e mucosas de todas as pessoas, como tabaco, ou cloro, pois, nestes casos, o estímulo resultará em exame falso positivo, ou seja, uma reação que não tem relação com uma doença. Resumindo: cloro e tabaco pioram os sintomas de uma alergia que já existe; não são iniciadores de uma doença alérgica.

Interessante é a possibilidade de utilizar alimentos “in natura”. Neste caso, realiza-se a puntura na fruta fresca, por exemplo, e, imediatamente após, a puntura no braço do paciente. Assim, uma pequeníssima quantidade da fruta é inoculada abaixo da pele. Este teste é chamado de “prick-to-prick test”.

Um exame que não tem o intuito de pesquisar se a IgE está aumentada, mas um outro tipo de reação, é o teste de contato, ou “patch test”, . Este teste pesquisa reações lentas, provocadas, em grande parte, por substâncias usadas na indústria, que induzem à liberação tardia de outros agentes da células. Esta é uma reação alérgica diferente e é pesquisada colocando-se, nas costas do paciente, adesivos com uma lista extensa de substâncias. Os adesivos são retirados dias após. A lentidão em ocorrer uma reação de irritação na pele, ou eczema, torna difícil a suspeita, pelo próprio paciente, de um possível agente causador. Um exemplo clássico é o do níquel, metal presente em bijuterias, clipe, botões, fecho de sutiã, haste de óculos e até em alimentos e tinturas de cabelo.

Essa reação pode ocorrer anos após o primeiro contato e depende da freqüência com que o paciente utilizou aquele material. Muitas vezes, a reação alérgica lenta aparece só na vida adulta. Não existe correspondência deste exame com provas realizadas no sangue. Portanto, quando o objetivo é investigar a possível sensibilidade a substâncias químicas (como exemplo, maquiagem, alguns corantes, produtos da borracha e conservantes) a única opção é o teste de contato.

Quem deve ser submetido a exames de alergia?

Pacientes de qualquer idade, que apresentam sintomas sugestivos de alergia, demandam investigação. Sintomas respiratórios podem ter causa alérgica e incluem coceira e vermelhidão nos olhos, queixas nasais (espirros, obstrução, coriza, ou coceira), tosse produtiva (“peito cheio”) e “chiado” (ronco ou som de “gato no peito”). Da mesma forma, sintomas que ocorrem na pele, como vermelhidão (com, ou sem inchaço) e dermatite atópica (lesões fixas, geralmente em dobras). Outros quadros que devem ser pesquisados: anafilaxia (reação de inchaço, falta de ar e, eventualmente, perda da consciência – ou desfalecimento), sintomas intestinais (cólicas e diarréia) relacionados à ingestão de um determinado alimento e reações generalizadas (em várias partes do corpo) a insetos.

A positividade no teste a algumas das substâncias relatadas pode trazer angústia ao paciente, principalmente quando se trata de itens para os quais não existe tratamento específico (como remédios). No entanto, a orientação dirigida para que não se entre em contato com o agente que produz uma resposta exagerada em nosso organismo ajuda o paciente a viver melhor, sem lesões ou coceiras desnecessárias.

Raul Melo